A leitura, na Educação Infantil, transcende a simples decodificação de símbolos. Trata-se de um processo complexo de construção de sentido, no qual a criança aprende a interagir com diferentes linguagens. O trabalho com a compreensão e interpretação deve, portanto, ser intencional desde os primeiros contatos com livros, histórias e imagens. O objetivo não é antecipar conteúdos formais, mas sim cultivar a curiosidade, o raciocínio inferencial e a capacidade de estabelecer conexões, que são alicerces do pensamento leitor.
Nesta fase, o texto escrito é frequentemente acompanhado ou até suplantado pela narrativa visual. As ilustrações não são meros adornos; são textos por si só, repletos de informações, emoções e sequências lógicas. Uma atividade fundamental consiste na leitura compartilhada de imagens. O educador pode apresentar uma ilustração detalhada e, por meio de perguntas abertas, guiar a criança a descrever o que vê, nomear elementos, inferir ações (“O que você acha que vai acontecer com este personagem?”) e relacionar cenas (“O que veio antes desta imagem?”). Este exercício desenvolve o vocabulário, a observação e a habilidade de construir uma narrativa coesa a partir de pistas visuais.
Para os textos verbais, a escolha recai sobre estruturas simples, repetitivas e previsíveis, como parlendas, poemas curtos, cantigas e histórias cumulativas. A previsibilidade permite que a criança antecipe palavras ou eventos, participando ativamente da leitura. Após a leitura em voz alta, é crucial promover momentos de interpretação. Em vez de questionários fechados, propõe-se uma conversa dialógica. Perguntas como “De que parte da história você mais gostou e por quê?”, “Como o personagem se sentiu quando…?” ou “O que você faria no lugar dele?” convidam a criança a refletir sobre enredo, sentimentos e consequências, exercitando a empatia narrativa e o pensamento crítico inicial.
A conexão entre o texto e a experiência pessoal da criança é outro pilar. Atividades que incentivam a recontagem da história com suas próprias palavras, a dramatização de cenas ou a criação de desenhos que representem um momento-chave são poderosas. Elas exigem que a criança processe a informação, selecione elementos relevantes e os expresse através de outra linguagem, consolidando a compreensão. A recontagem, em especial, evidencia como a criança organiza a sequência de eventos e quais detalhes considerou mais significativos.
Por fim, é essencial criar um ambiente rico em letramento, onde a leitura seja uma atividade prazerosa e significativa. Isso inclui o acesso diversificado a livros de qualidade, mas também a leitura de rótulos, cartazes, receitas culinárias simples ou a lista de atividades do dia. Mostrar os usos sociais da leitura contextualiza sua função. O papel do educador é o de mediador: modelar estratégias de compreensão, fazer perguntas instigantes e validar as interpretações das crianças, entendendo que podem ser diferentes da sua, mas igualmente válidas dentro do universo de sentido que constroem.
Em síntese, desenvolver a compreensão leitora na Educação Infantil é um investimento na formação de leitores competentes e reflexivos. Através da interação cuidadosa com textos e imagens, da valorização da oralidade e da experiência, plantam-se as sementes de uma relação profunda e duradoura com a palavra e o mundo que ela ajuda a desvendar.
Aplicação prática com materiais pedagógicos
Materiais estruturados podem apoiar a aplicação prática dessas estratégias no cotidiano educacional.
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